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De Toyohashi (Japão)

Taggart Murphy desembarcou no aeroporto internacional de Narita, Tóquio, em 25 de março –um dia após o anúncio do adiamento da Olimpíada, um dia antes de valer a quarentena imposta a viajantes vindos dos Estados Unidos. 

Murphy, 67, é um acadêmico americano que viveu parte da infância e da adolescência no Japão. Depois, passou quase duas décadas ininterruptas no arquipélago, como professor da Universidade de Tsukuba, campus de Tóquio. 

No fim de 2019, já aposentado, o acadêmico voltou para os Estados Unidos, mas, após o início da pandemia de Covid-19, decidiu cruzar o mundo de novo para “passar a tempestade” junto à sua família que está no Japão. 

Autor de “Japan and the shackles of the past (what everyone needs to know)” (Japão e os elos do passado –o que todo mundo precisa saber, em tradução livre, Oxford University Press, 2014), Murphy escreve na atual edição da revista New Left Review sobre a experiência asiática, especialmente japonesa, no controle do novo coronavírus. 

Nesta entrevista exclusiva ao blog, discute história, política e a incógnita nipônica: por que o arquipélago, atingido pelo coronavírus em janeiro, demorou para ver uma escalada explosiva de casos, o que está acontecendo agora, em abril?

Professor Murphy, o Japão foi elogiado por controlar o avanço do novo coronavírus. Por outro lado, foi criticado por não realizar testes numerosos e acusado de querer camuflar números para viabilizar a Olimpíada. Sob pressões e só recentemente, o país declarou estado de emergência. Como analisa a situação japonesa?

O Japão não agiu proativamente como outros países asiáticos, como China, Coreia do Sul e Cingapura, que tomaram medidas diferentes, mas agressivas: na China, lockdown rigoroso; na Coreia do Sul, muitos testes; Cingapura, Hong Kong e Taiwan instauraram imediatamente restrições rigorosas a viagens internacionais. O Japão não fez nada disso no início do surto. Mas, até agora, o país não viveu uma explosão de casos e de mortes, como na Itália e agora nos Estados Unidos. 

Diversas hipóteses foram levantadas sobre os números japoneses. Primeiro, a realização mínima de exames, como reportou o jornalista americano Jake Adelstein no Asia Times, citando o depoimento em off de um oficial do Ministério da Saúde, para “manter os números baixos e fazer o possível para que tudo pareça ‘sob controle’”.

Segundo o depoimento, a estratégia era literalmente focar no tratamento de casos graves e impedir corridas a hospitais, na expectativa de que casos leves fossem resolvidos por conta própria sem necessidade de diagnóstico e internação. Em outras palavras, a maioria dos infectados iria se recuperar sozinhos, graças a seus sistemas imunológicos, reservando à minoria dos infectados a excelente infraestrutura para tratamento de pneumonia (uma das complicações mais sérias do novo coronavírus). 

Segundo, a possibilidade de subnotificação deliberada de casos. Entretanto, você consegue subnotificar casos, mas não consegue esconder corpos –neste contexto, testando, tendo casos ou não, não houve aumento dramático no índice de mortalidade de país, onde idosos são quase 30% da população. Como se explica isso? 

Terceiro, as ideias de que cultura, estilo de vida (como uso de máscaras há bastante tempo) ou hábitos de higiene básica bastariam para conter o avanço do vírus no país. No entanto, se essa especulação valia até fins de março, a partir de abril o número de diagnósticos subiu dramaticamente. De novo, como se explica isso? 

Ninguém tem a resposta. E os que sabem, nos bastidores do governo, não comentam. De todo modo, após o adiamento da Olimpíada, que teoricamente iria coroar o tempo de Shinzo Abe como primeiro-ministro, o governo passou a expressar sinais de preocupação publicamente, pela primeira vez, de que as coisas podem sair do controle. 

Enquanto Jair Bolsonaro vem sendo criticado por negar a gravidade da pandemia, Shinzo Abe foi criticado por silenciar diante dela. Vê paralelos entre Brasil e Japão?

Brasil e Estados Unidos são ótimos exemplos de negação da gravidade do vírus por bastante tempo, e o resultado está sendo visto agora, com a escalada de casos registrados e de mortes. 

No Japão, há outra questão subjacente: a falta de certa autoridade nas decisões políticas do país. Aqui, o poder é fraturado e excepcionalmente fraco diante dos padrões globais. O peso político de Shinzo Abe é diferente do de Boris Johnson, no Reino Unido, que é um sistema similar de parlamentarismo, por exemplo. A influência para implementar medidas é muito diferente. 

Abe só declarou estado de emergência após diversas pressões, inclusive de governadores implorando para instaurar ações mais fortes. Entretanto, o estado de emergência japonês não tem implicações legais, na verdade. Isto é, a declaração garante a governadores a prerrogativa de “pedir fortemente” para a população adotar certos comportamentos, como evitar aglomerações ou deixar de ir a bares e casas de shows, mas a polícia não pode intervir, não pode atribuir multas a quem abrir negócios ou estiver zanzando por aí.  

O Japão é um laboratório político fascinante. Pensando nos paralelos com Brasil, Estados Unidos, Europa, aqui o alinhamento político está curiosamente invertido. Em geral, a direita diz que os governos estão exagerando ou indo longe demais nas diretrizes de lockdown e quarentena, como se a pandemia fosse uma “armadilha” imaginada pela esquerda; a esquerda, por sua vez, diz que precisamos fazer o possível para preservar as vidas, respeitando as restrições de movimento ao máximo. 

No Japão é o contrário: alas da direita conservadora defendem que esta é a hora de revisar a Constituição e dar mais poder ao primeiro-ministro, parar o país e impor regras rigorosas de isolamento; enquanto setores da esquerda progressista ponderam e alertam aos riscos de repressão e de flertar com políticas autoritárias, atropelando direitos. Mas, como a polarização política japonesa não é acirrada como em outros países, esses embates existem, mas não são muito discutidos agressivamente. Se lá fora há expectativa de convulsões sociais e tudo mais, aqui dificilmente isso vai acontecer.

O gesto de autoridades de “pedir” para a população evitar aglomerações, como indica o estado de emergência, é o bastante?

Historicamente, a coesão social é muito forte no Japão. O poder da pressão social é singular: tende-se a não confrontar, mas seguir as regras da sociedade, não necessariamente impostas por um ou outro governante. É parte da “administração da realidade”, termo cunhado pelo jornalista holandês  Karel van Wolferen, autor de “The enigma of Japanese power: people and politics in a stateless nation” [o enigma do poder japonês: povo e política em uma nação sem estado, em tradução livre, Vintage Books, 1989]

A administração da realidade consiste em um conjunto de instituições e práticas que pressionam para garantir um certo comportamento dos japoneses, previsível e que não deixa margem para contradições ou contestações. Diversas instituições, incluindo imprensa, mercado e política, contribuem para a construção dessa realidade. É um consenso implícito, um conjunto de regras não ditas: todo mundo “simplesmente sabe” que deve ser assim ou assado. 

O que se vê agora é a arte da administração da realidade: o estado de emergência só vai funcionar se prevalecer o consenso de que a crise do novo coronavírus está entre nós, para que todo mundo veja e aceite que é preciso tomar atitudes em certa direção.

Exemplo: o primeiro surto aqui aconteceu em Hokkaido. No fim de fevereiro, foi a primeira província a declarar estado de emergência [que se encerrou em 19 de março; a nova declaração, que vale para o país todo, se iniciou em 16 de abril]. Hokkaido conseguiu conter o avanço do vírus, sem imposições legais, quer dizer, funcionou o “pedido” de suspensão de atividades não-essenciais, como colégios, casas de show etc. A política funcionou no primeiro momento, derrubando o número de novos casos por dia ali. 

No livro, o sr. diz que a política japonesa é basicamente reativa. Qual é o impacto desta tradição diante de crises como a atual?

Sim, historicamente, a política japonesa é reativa. O lado negativo é a demora para reagir a crises, agarrando-se à ideia de que está tudo sob controle até o último minuto, como na crise do petróleo de 1973, na crise financeira internacional de 2008 e no desastre de Fukushima de 2011. A crise atual é outro exemplo. 

O lado positivo, que a história japonesa também mostra, é que, quando uma crise se torna clara, cristalina e inegável, quando uma realidade se impõe mostrando riscos realmente altos, a coesão social é forte o bastante para fazer o país mudar drasticamente de diretrizes e reagir com eficiência. 

Foi o que aconteceu, por exemplo, na reconstrução japonesa após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o famoso “milagre econômico”, na resposta às crises de 1973, 1979 e 2008 –apesar dos abalos, que não foram pequenos, o Japão ainda é a terceira maior economia do mundo. Por isso, inclusive, digo que prefiro estar aqui se as coisas ficarem realmente feias, se o vírus fugir do controle, colapsando totalmente sistemas de saúde no mundo inteiro. 

Contudo, aqui ainda não há consenso se essa hora já chegou. O que falta agora é finalmente acordar para a pandemia. É como se eles estivessem ponderando: “nós sabemos que o novo coronavírus é sério, mas ainda não é gripe espanhola” ou “é ruim, mas ainda não é tão ruim assim”, vamos dizer. Isto é, como se estivessem incertos sobre o quão grave é especificamente no território japonês, e esse tipo de incerteza é o obstáculo para reagir mais agressivamente. 

É brutal, mas até agora vem prevalecendo um pensamento de análise de riscos, do que está em jogo: vale parar tudo, talvez instaurar o caos, para preservar a vida de 20 ou 30 mil octogenários que vão morrer sozinhos nos próximos cinco anos? Obviamente, faz parte do não dito: ninguém vai dizer isso publicamente. 

O livro destaca como o Japão construiu historicamente uma identidade nacional, uma nação à parte do mundo –isolada, como uma ilha. Isso influencia o tratamento a imigrantes no país?

O Japão não abrirá portas para grandes contingentes de imigrantes tão cedo, penso, considerando a história do país. A falta de mão de obra é um problema econômico e um problema demográfico, mas não vejo nenhuma possibilidade de abertura maior a imigrantes.

Até agora, a política para atrair mão de obra tem privilegiado descendentes diretos de japoneses, na expectativa de que os estrangeiros sejam assimilados e não provoquem confusões, o que também tem a ver com a tal coesão social tão forte no país. É até um tipo de ingenuidade dos japoneses, mas eles esperam que os nikkeis nascidos no Brasil, por exemplo, podem se revelar “mais japoneses” e “menos brasileiros” pelo simples fenótipo.

É um pouco diferente para imigrantes caucasianos, como eu, que sou visivelmente não japonês e nem sequer descendente distante. Digo que se você consegue ser feliz como um “outsider”, o Japão é um lugar maravilhoso para viver. Meu companheiro é japonês, muitos de meus amigos mais próximos são japoneses. Mas eu sei que eu sempre serei visto como estrangeiro, como um “gaijin”.

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‘Japan and the shackles of the past’ (Oxford, 2014)

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fontes: folha.com.br & Urandir News