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Como os conservadores aprenderam a exercer poder no Facebook  Just True Urandir Pesquisa Ciencia Ufologia Tecnologia  417f 15814381635e42d4d3aa36c 1581438163 3x2 rt   urandir   TECNOLOGIA   Como os conservadores aprenderam a exercer poder no Facebook

O Facebook criou o projeto P –de “propaganda”– nas semanas frenéticas que se seguiram à eleição americana de 2016, e rapidamente identificou dezenas de páginas que divulgaram notícias falsas, antes da surpreendente vitória de Donald Trump. Quase todas eram baseadas no exterior, tinham motivações financeiras e exibiam claras inclinações direitistas.

Em um mundo de perfeita neutralidade, ao que o Facebook aspira como meta, a inclinação política das páginas não deveria importar. Mas em uma videoconferência entre o escritório do Facebook em Washington e sua sede no Vale do Silício, em dezembro de 2016, o republicano com a posição mais alta na empresa expressou preocupações que se tornariam familiares para o pessoal da companhia.

“Não podemos remover todas elas porque isso prejudicaria os conservadores desproporcionalmente”, disse Joel Kaplan, que trabalhou na Casa Branca no governo de George W. Bush e agora comanda o escritório do Facebook em Washington, de acordo com pessoas informadas sobre a reunião que falaram sob a condição de que seus nomes não fossem revelados, para preservar relacionamentos profissionais.

Quando outro empregado do Facebook pressionou pela remoção de todas as páginas da lista porque as contas alimentavam as “fake news” que haviam distorcido a eleição, Kaplan alertou que isso causaria reações adversas entre os conservadores.

“Eles não acreditam que essas notícias sejam falsas’”, disse Kaplan, pedindo tempo para desenvolver diretrizes que pudessem ser defendidas diante dos críticos da companhia, especialmente os de direita.

O debate sobre o Projeto P, que resultou na remoção de algumas das piores entre as páginas em questão, enquanto a maioria das demais permanecia na plataforma, exemplifica a dinâmica política que reina no Facebook desde que Trump emergiu como virtual indicado do Partido Republicano à Casa Branca, em 2016.

Uma companhia liderada principalmente por democratas, e sediada no norte da Califórnia, um bastião dos progressistas, repetidas vezes beneficiou a direita, adotando normas, contratando pessoal e realizando gestos públicos que atendem aos interesses dos republicanos, de acordo com atuais e antigos empregados da companhia e outras pessoas que trabalham em estreito contato como Facebook.

Trump e outros líderes de seu partido pressionaram o Facebook por meio de afirmações não comprovadas de parcialidade contra os conservadores, em meio a sinais cada vez mais forte de que governo agiria, o que inclui investigações pelo Congresso e pelo Departamento da Justiça.

Os republicanos também exploraram o medo do Facebook de alienar os americanos conservadores a fim de obter concessões da empresa, cujo conteúdo noticioso que costuma ser mais compartilhado tipicamente inclui reportagens da Fox News e de outras fontes de tendência direitista.

Esses fatores –em conjunto com a longa resistência da empresa a agir como “árbitro da verdade”– afetaram as respostas do Facebook a diversas questões importantes, de como lidar com as “fake news” e a manipulação do eleitorado americano pelos russos por meio de sua plataforma, a, mais recentemente, a definição das normas de propaganda política estabelecidas para a eleição de 2020, dizem pessoas informadas sobre as discussões internas da empresa.

O Facebook, diferentemente do Google e do Twitter, também recusou apelos para que restringisse o acesso de políticos a poderosos recursos de direcionamento de propaganda –que Trump usou com muito gosto quatro anos atrás. Esses recursos permitem que mensagens sejam adaptadas às preferências de usuários individuais, com base em características que o Facebook computou depois de anos de rastreamento do comportamento de seus usuários.

“Creio que o Facebook está considerando suas normas de propaganda política em termos estritamente partidários, e eles têm medo de enraivecer os republicanos”, disse Alex Stamos, diretor do Stanford Internet Observatory, uma organização de pesquisa, e ex-vice presidente de segurança do Facebook. “Os republicanos no escritório de Washington se veem como uma barreira contra os progressistas na Califórnia”.

A companhia afirma que suas decisões são orientadas não por cálculo político e sim por metas mundiais, como a de expandir as conexões entre os usuários e protegê-los contra intervenção governamental excessiva, de acordo com o compromisso do presidente-executivo Mark Zuckerberg de manter a maior liberdade de expressão possível na plataforma de mídia social.

“Depois de 2016, fizemos grandes investimentos na formação de novas equipes e criação de novas tecnologias para tornar nossos produtos mais seguros e proteger as eleições”, disse Andy Stone, porta-voz do Facebook. “Pessoas dos dois lados da divisa política continuam a nos criticar, mas mantemos o compromisso de buscar perspectivas externas e construir uma plataforma para todas as ideias”.
Kaplan se recusou a comentar para este artigo.

Mas críticos –tanto de fora quanto de dentro do Facebook– veem algo que se assemelha mais a uma dose forte de realismo empresarial, uma disposição de acatar as demandas dos políticos em uma era na qual os republicanos controlam a maior parte das alavancas do poder em Washington.

“O Facebook não fala republicano”, disse

Um antigo empregado da equipe de integridade da empresa, criada para garantir a segurança e confiança na plataforma, dosse que o Facebook não fala republicano. Ele concordou em falar sobre o antigo empregador sob a condição de que seu nome não fosse revelado e disse também que a empresa entendia que poderia ser prejudicada se não desse aos republicanos o que eles pediam.

Nos 16 anos transcorridos desde seu surgimento como um site cuja missão era conectar os alunos da Universidade Harvard, o Facebook veio a emergir como talvez a fonte mais abrangente de notícias e informação do planeta, especialmente depois de adquirir subsidiárias importantes como o Instagram e WhatsApp, e de desenvolver o serviço Messenger, criando um conjunto de ferramentas de comunicação que abarca todo o planeta e conta com bilhões de usuários.

A tecnologia do Facebook desempenhou um papel em fomentar revoluções democráticas no mundo árabe e em ajudar a estimular movimentos democráticos americanos como o Black Lives Matter. Mas a plataforma também foi usada para ajudar a promover o genocídio em Mianmar, de acordo com um relatório da ONU, e vem sendo usada para transmitir ao vivo vídeos violentos, entre os quais um que mostrava o massacre de frequentadores de uma mesquita da Nova Zelândia.

O poder do Facebook é cobiçado pelos políticos americanos, que sabem que a vasta maioria dos eleitores do pais tem contas na rede social.

Trump já gastou mais de US$ 32 milhões na plataforma em sua campanha de reeleição, e os pré-candidatos democratas gastaram, somados, mais de US$ 107 milhões, de acordo com a Ad Library, uma das iniciativas de transparência do Facebook.

Andrew Bosworth, um importante executivo da empresa visto como confidente de Zuckerberg, postou um texto em dezembro afirmando que o Facebook era “responsável pela eleição de Donald Trump” em 2016, por conta do uso propagandístico eficiente que o candidato fez da plataforma – um comentário que sublinha o que está em jogo nas decisões políticas da companhia.

Os esforços do Facebook para apaziguar as queixas dos republicanos influenciaram diversas decisões da empresa nos últimos anos, dizem pessoas informadas sobre os debates internos do grupo. Entre elas estavam permitir ou não imagens explícitas de bebês prematuros sendo alimentados por tubos –uma proibição que irrita os adversários do aborto–, ou decidir se o site Breitbart News, fortemente conservador, deveria ser incluído em uma lista de fontes noticiosas, apesar de seu histórico, nas palavras de Stephen Bannon, ex-presidente executivo da organização, ser o de “uma plataforma para a direita alternativa”.

Elizabeth Moore, porta-voz do Breitbart. mencionando a popularidade do site e o que ela definiu como um forte histórico de veracidade, disse que ”seria insano reduzir os direitos da imensa audiência de usuários do Facebook que anseiam por nosso conteúdo”.

Mas a inclusão do site como fonte de notícias gerou críticas entre aqueles que acreditam que a decisão foi tomada para calar as queixas republicanas sobre a companhia.

“Não acredito que eles o façam por serem uma companhia conservadora”, disse Jeff Jarvis, professor de jornalismo na Universidade da Cidade de Nova York, que trabalhou com o Facebook em diversos projetos de jornalismo.

O preço foi alto em termos de irritação dos democratas, como a senadora Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts, que prometeu liderar esforços para promover a cisão do Facebook, caso seja eleita presidente.

O financista George Soros, que é progressista, apelou em um artigo de opinião recente publicado no The New York Times pela retirada de Zuckerberg do controle do Facebook, e acusou a companhia de manter “uma operação informal de assistência mútua” com Trump.

Mas, ao menos de acordo com um indicador, as decisões do Facebook parecem ter funcionado: elas apaziguaram um presidente irritadiço e imprevisível. No mês passado, em Davos, Suíça, Trump disse ao canal de notícias CNBC, sobre Zuckerberg, que “ele fez um trabalho excelente”.
 
Pouco depois da reunião do Facebook sobre o Projeto P, Corey Lewandowski, que foi um dos diretores da campanha de Trump em 2016, visitou o escritório do Facebook em Washington e ofereceu ajuda à empresa sobre como lidar com o novo governo, de acordo com pessoas informadas sobre a reunião, que falaram sob a condição de que não fossem identificadas, por estarem discutindo questões internas delicadas.

A transferência de poder em Washington era uma questão séria para a companhia. Seus empregados doaram apenas US$ 5.171 à campanha de Trump, enquanto a adversária democrata do novo presidente, Hillary Clinton, recebeu US$ 1,1 milhão do pessoal da companhia, com cerca de metade do total vindo de dois dos confidentes mais próximos de Zuckerberg, a vice-presidente de operações Sheryl Sandberg e Chris Cox, então vice-presidente de produtos, de acordo com o escritório de análise políticas GovPredict.

Mas a reunião com Lewandowski gerou indignação dentro de uma companhia que ainda estava inconformada com o resultado da eleição.

Diversos militantes do Partido Democrata se irritaram muito, entre os quais Catlin O’Neill, diretora de políticas públicas da empresa para os Estados Unidos e antiga chefe de gabinete da deputada Nancy Pelosi, hoje presidente da Câmara dos Deputados, e neta de um predecessor lendário de Pelosi, Thomas “Tip” O’Neill, por muito tempo deputado federal democrata por Massachusetts, disseram pessoas informadas sobre a visita e suas consequências.

O Facebook decidiu não contratar Lewandowski, que se recusou a comentar sobre os detalhes de sua visita, limitando-se a afirmar, em uma mensagem de texto: “Por favor mencione o fato de que nunca trabalhei para eles ou recebi quaisquer pagamentos deles –fui convidado para uma reunião, e compareci”.

Mas o encontro deixou muita gente na empresa insegura sobre o que Trump e seus aliados poderiam fazer –ou, talvez ainda pior, sobre o que o novo presidente poderia tuitar.

A companhia aos poucos implementou regras para combater a veiculação de reportagens falsas e enganosas, por meio de novas iniciativas de transparência e um sistema de verificadores de fatos terceirizados, em uma decisão que irritou alguns republicanos.

O Facebook também adotou sua primeira norma contra “comportamento não autêntico coordenado”- ou seja, o uso de sistemas robotizados, contas falsas ou outras táticas de amplificação a fim de manipular a plataforma, como os russos e outros fizeram em 2016–, e reforçou sua equipe de segurança a fim de policiar violações.

As queixas de que os conservadores estavam sendo perseguidos, sob as novas regras e também de acordo com normas de conteúdo vigentes há muito tempo, como a proibição à retórica hostil, se intensificaram.

Por exemplo, a decisão de alguns sites de excluir as contas do proponente de teorias de conspiração Alex Jones e do astro da mídia direitista Milo Yiannopoulos, em 2019, por serem “perigosos”, gerou acusações de censura contra as grandes empresas de tecnologia, da parte de conservadores menos extremos.

À medida que essas e outras queixas sobre o Facebook cresciam entre os republicanos, Trump muitas vezes as amplificava recorrendo ao Twitter, uma plataforma rival de mídia social na qual ele tem mais de 72 milhões de seguidores.

“O Facebook sempre foi anti-Trump”, ele tuitou em 27 de setembro de 2017, em meio ao escândalo sobre esforços russos para usar a mídia social a fim de ajudá-lo a se eleger. No mês seguinte, ele acrescentou que “a trapaceira Hillary Clinton gastou centenas de milhões de dólares a mais do que eu na Eleição Presidencial. O Facebook estava do lado dela e não do meu!”

Trump fez acusações semelhantes contra outras companhias de tecnologia, por exemplo em dezembro de 2018. “Facebook, Twitter e Google são tão parciais em favor dos Democratas que é ridículo!”

Mas o Facebook muitas vezes arca com a maior parte da ira do presidente, como aconteceu depois que um par de personalidades de mídia social, “Diamond” e “Silk”, acusou a companhia de censura, por elas terem recebido um alerta depois de postar conteúdo definido como “inseguro”. (A companhia mais tarde anunciou que sua decisão havia sido um erro.)

“As maravilhosas Diamond e Silk foram tratadas horrivelmente pelo Facebook. Elas trabalham muito, e o que fizeram a elas é muito triste – estamos averiguando”, Trump tuitou, em maio de 2019. “As coisas estão ficando cada vez piores para os Conservadores na mídia social!”
 
O papel de ajudar a companhia a manobrar nessa nova e traiçoeira paisagem política se tornou uma das principais responsabilidades de Kaplan, vice-presidente mundial de políticas públicas do Facebook, que começou na companhia em 2011, depois de oito anos na Casa Branca de Bush e de uma passagem por um escritório de lobby do ramo da energia.

Antigo oficial do corpo de fuzileiros navais, ele foi assistente jurídico do juiz Antonin Scalia na Suprema Corte e, a despeito de ter apoiado o ex-governador Jeb Bush (Flórida) nas primárias presidenciais republicanas, e de mais tarde ter transferido seu apoio ao senador Marco Rubio, do mesmo estado, ele se reuniu com Trump em dezembro de 2016, depois que o presidente eleito expressou interesse em apontá-lo para o posto de diretor do Serviço de Administração e Orçamento.

Kaplan mais tarde desempenhou papel importante na obtenção de apoio para Brett Kavanaugh, de quem ê amigo há muito tempo, quando este foi apontado por Trump para a Suprema Corte.

Quando Trump assumiu, Kaplan era um republicano em uma companhia cada vez mais consciente do excesso de democratas em suas fileiras de comando. Entre estes estava Sandberg, que trabalhou no governo de Bill Clinton e contratou muitos amigos e ex-colegas para o Facebook, criando uma classe de aliados internos conhecida pela sigla “Foss” [amigos de Sheryl Sandberg, em inglês].

Kaplan, que foi namorado de Sandberg quando os dois estudavam em Harvard, conseguia ser ao mesmo tempo um Foss e um dos poucos republicanos presentes quando decisões importantes eram tomadas pela companhia. A combinação lhe dava credibilidade quando alertava, como fazia frequentemente, que uma decisão iminente poderia inflamar o relacionamento já perigoso entre a companhia e os conservadores.

A influência crescente dos republicanos sobre o Facebook ia além de Kaplan. Katie Harbath, que foi assessora na campanha presidencial do ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, ganhou importância.

Kaplan também abandonou a tradição de ter membros dos dois partidos nas posições de comando do escritório de Washington ao contratar outro republicano, Kevin Martin, antigo presidente da Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês), como seu adjunto –o que reforça as inclinações conservadoras do escalão mais alto do escritório.

Kaplan se provou eficiente em amenizar as preocupações conservadoras sobre o Facebook. Mesmo antes que Trump conquistasse a presidência, a companhia enfrentou uma crise em 2016 quando o site de tecnologia Gizmodo publicou uma reportagem segundo as qual o pessoal terceirizado que administrava a seção “trending news” do Facebook estava escamoteando artigos de inclinações conservadoras.

Kaplan organizou uma pequena equipe de republicanos, entre os quais Harbath, a fim de organizar uma visita de líderes conservadores, como os comentaristas políticos Glenn Beck e Tucker Carlson, à sede da companhia. A reunião com Zuckerberg e Sandberg acalmou a controvérsia –pelo menos por algum tempo– mas os conservadores logo retornaram com outras queixas.

“Quem não chora não mama”, disse outra pessoa informada sobre os esforços da empresa para apaziguar os conservadores, que falou sob a condição de que seu nome não fosse mencionado. “E eles choraram”.
Quanto ao problema da parcialidade no “trending news”, o Facebook cancelou o contrato com o serviço terceirizado e deu a função de determinar que artigos estavam atraindo mais leitores a um algoritmo. Isso permitiu que o recurso se tornasse um veículo para a difusão de notícias falsas, o que prejudicou o Facebook nos meses anteriores à eleição. Uma notícia falsa que o algoritmo recomendou informava que a apresentadora Megyn Kelly havia sido demitida da Fox News por ter declarado apoio a Hillary.
 
Pesquisadores de segurança do Facebook identificaram os primeiros sinais de que os russos estavam buscando influenciar a eleição dos Estados Unidos meses antes de sua realização, descobrindo contas que aparentemente estavam sob o controle de hackers a comando de forças armadas estrangeiras.

Essas descobertas iniciais, ainda que transmitidas ao Serviço Federal de Investigações (FBI), não foram anunciadas publicamente. Mas quando agentes dos serviços de informações dos Estados Unidos anunciaram, em janeiro de 2017, que eles também haviam detectado interferência russa na mídia social, surgiu um debate interno no Facebook sobre o que revelar publicamente, e quando.

O resultado, depois de três meses de disputas internas, foi um documento de 13 páginas divulgado em abril, que não incluía as palavras “Rússia” ou “russos”. Em lugar disso, havia a seguinte referência oblíqua: “Nossos dados não contradizem a atribuição oferecida pelo diretor de inteligência nacional dos Estados Unidos no relatório datado de 6 de janeiro de 2017”.

Diversas questões estavam em jogo nesses debates, entre as quais determinar se os pesquisadores do Facebook tinham provas claras o bastante para acusar a Rússia abertamente, e os dirigentes da empresa pressionaram para garantir que o documento fosse rigoroso o bastante para ser defendido diante da reação adversa inevitável por parte dos republicanos.

Mas alguns empregados da companhia consideraram que o documento resultante parecia incompleto, e a cautela dos dirigentes da empresa alimentou queixas de que eles estavam agindo em parte para evitar inflamar as tensões com a Casa Branca, consumida pela determinação de rebater as acusações de que os russos haviam ajudado a eleger Trump.

“Se mencionarmos a Rússia, ocuparemos posição central na disputa e vamos irritar o governo em Washington”, recorda ter ouvido uma pessoa informada sobre a dinâmica do escritório do Facebook em Washington.

Stone, o porta-voz do Facebook, disse que “o objetivo do documento era divulgar nossas conclusões de maneira clara, e é por isso que houve acordo amplo por parte da equipe de segurança em mencionar a Avaliação da Comunidade de Inteligências sem citar países específicos”.

A preocupação sobre efeitos políticos colaterais cresceu nos meses seguintes, quando pesquisadores de segurança do Facebook descobriram que a Internet Research Agency, cujo proprietário é aliado muito próximo do presidente russo Vladimir Putin, havia usado 470 contas e páginas falsas a fim de manipular os eleitores americanos. Quando o Facebook revelou a interferência russa, em setembro de 2017, os temores de que isso enfureceria a Casa Branca se provaram prescientes.

Trump logo começou a tuitar sobre a empresa, e os conservadores do Congresso usaram as audiências resultantes a fim de acusar o Facebook de parcialidade contra as vozes conservadoras na plataforma. Essas queixas cresceram no ano seguinte, quando surgiu o escândalo da Cambridge Analytica, sobre o uso de dados confidenciais do Facebook a fim de direcionar mensagens de campanha.

Zuckerberg visitou o Congresso em abril de 2018 para falar sobre o escândalo da Cambridge Analytica, e foi recebido com acusações de parcialidade. O senador Ted Cruz (republicano do Texas) mencionou as advertências do Facebook a Silk e Diamond como exemplos de “um padrão onipresente de parcialidade política”.

Em audiência na Câmara dos Deputados, um dia depois, o deputado Billy Long (republicano do Missouri) perguntou a Zuckerberg: “O que existe de ‘inseguro’ em duas mulheres negras que apoiam Trump?”

Embora Zuckerberg tenha atribuído o incidente a um “erro de fiscalização”, no mês seguinte a companhia anunciou que conduziria uma auditoria sobre as acusações de parcialidade contra os conservadores no Facebook. No comando do inquérito estaria não um pesquisador independente de mídia social, mas um proeminente advogado conservador, o ex-senador Jon Kyl (republicano do Arizona).

O relatório provisório resultante, completado em agosto, catalogava numerosas queixas dos conservadores mas não oferecia provas concretas de parcialidade ou qualquer revisão sistemática da questão, baseada em dados.

Mas a empresa ainda assim fez duas concessões: o Facebook contrataria mais pessoal “para trabalhar com organizações e líderes de direita”, e a companhia afrouxaria uma norma publicitária adotada muito tempo antes que proibia o uso de fotos médicas explícitas; o resultado disso seria permitir que organizações antiaborto exibissem em suas mensagens políticas imagens de bebês prematuros alimentados e medicados por meio de tubos.

A auditoria e suas concessões satisfizeram muitos conservadores mas irritaram algumas pessoas do lado oposto do espectro político, que haviam começado a sentir que, em suas transações com o Facebook, estavam do lado perdedor de uma batalha contra uma campanha vigorosa, organizada e consistente de pressão por parte dos conservadores. Líderes dos direitos civis, por exemplo, vinham solicitando há anos uma auditoria sobre o racismo na plataforma. Ela terminou sendo anunciada no mesmo dia, 18 de maio, em que a auditoria sobre a parcialidade contra os conservadores.

“Estávamos dialogando com eles, em alguma forma, há quatro anos, sem muito sucesso”, disse Malkia Devich Cyril, pesquisadora sênior do grupo ativista MediaJustice e parte da delegação do movimento Black Lives Matter que visitou o Facebook em 2016. “Como indivíduos, eles talvez tenham inclinações liberais ou progressistas, mas como companhia seus interesses estão sendo bem servidos pela política econômica conservadora”.
 
O que está em jogo politicamente para o Facebook ficou ainda mais claro no ano passado. Uma grande iniciativa da empresa, uma criptomoeda chamada libra, foi recebida com desdém perceptível em Washington.

“A moeda virtual ‘libra’ do Facebook terá importância e confiabilidade baixas”, tuitou Trump em julho, deixando clara sua intenção de impor regulamentação federal à iniciativa. “Temos apenas uma moeda real nos Estados Unidos, e ela está mais forte do que nunca, e é confiável e fidedigna. Trata-se da moeda mais dominante no Mundo, por larga margem, e sempre será. Essa moeda se chama Dólar dos Estados Unidos”.

Mais ou menos no mesmo momento, o Departamento da Justiça iniciou uma ampla revisão antitruste sobre as grandes empresas de tecnologia, entre as quais o Facebook.

Zuckerberg –que reagiu com aspereza contra Warren por conta dos apelos da senadora pela cisão do Facebook, dizendo aos empregados da companhia em uma reunião em julho que “entraria no ringue e lutaria” contra qualquer esforço nesse sentido– adotou tom mais conciliador com relação a Trump.

Quando rumores sobre investigações federais começaram a circular com mais intensidade, em setembro, Zuckerberg visitou a Casa Branca. Trump tuitou: “Boa reunião com Mark Zuckerberg do @facebook no Gabinete Oval, hoje”. O tuite incluía uma foto de um aperto de mão entre o bilionário e o presidente.

Zuckerberg também recebeu um grupo de conservadores em sua casa em Palo Alto, Califórnia, em junho. Um dos presentes, Grover Norquist, veterano ativista que luta pela reforma dos impostos, elogiou a companhia por contratar pessoal especificamente para trabalhar com os conservadores.

“Houve um esforço que parece sério para dialogar conosco”, disse Norquist, presidente da organização Americans for Tax Reform.

Duas vitórias importantes para Trump e os conservadores surgiram em meio aos esforços de aproximação de Zuckerberg.

A primeira aconteceu quando Nick Clegg, vice-presidente de assuntos internacionais e comunicação do Facebook, anunciou em setembro que o sistema de verificadores de fatos terceirizados da companhia não verificaria afirmações de políticos.

Ainda que o Facebook tenha afirmado que isso era apenas a ratificação de uma prática existente, o anúncio provocou fúria entre os democratas, irritados com os milhares de falsidades comprovadas, declarações enganosas e informações maquiadas oferecidas por Trump, e preocupados com a exploração dessa lacuna por ele na campanha deste ano.

Um teste imediato serviu para confirmar que havia motivo para temer. Um anúncio de campanha de Trump fazia acusações ao ex-vice presidente Joe Biden, naquele momento o líder entre os pré-candidatos à indicação presidencial democrata, que verificadores de fatos independentes definiram como dúbias.

A direção da campanha de Biden exigiu a remoção do anúncio, mas o Facebook recusou, reiterando que não agiria contra declarações falsas de políticos.

Aqueles que defendem a decisão, dentro e fora da empresa, apontaram para a flexibilidade com que o discurso político costuma ser tratado nos Estados Unidos, e para a relutância de Zuckerberg em restringir a liberdade de expressão dos usuários em qualquer circunstância exceto as mais extremas. 

Ele declarou em uma palestra na Universidade de Georgetown, em outubro, que restringir o discurso político ameaça “a capacidade de falar livremente [que] teve posição central na luta pela democracia em todo o mundo”.

Mas os críticos viram nisso simplesmente um novo esforço do Facebook para evitar a ira republicana.

“No momento, Trump é o presidente, e a companhia obviamente segue de perto os ventos políticos”, disse Vanita Gupta, presidente da Conferência de Lideranças dos Direitos Civis e Humanos, uma federação de organizações ativistas em Washington. “Todos eles sabem [no Facebook] que o Departamento da Justiça e os secretários estaduais de justiça estão farejando, em busca de oportunidades de regulamentação e litígio”.

A segunda vitória para os conservadores veio logo depois, quando o Facebook rejeitou apelos pela limitação do uso político de recursos publicitários para direcionamento de mensagens individuais de propaganda, com base no endereço residencial, gênero, escolaridade, renda, situação marital, emprego ou outras características dos usuários. Brad Parscale, que assessorou os esforços digitais de campanha de

Trump em 2016 e agora comanda sua campanha de reeleição, alardeou o poder dessas ferramentas de direcionamento e deixou claro que estava ansioso por voltar a usá-las.

Alguns operadores políticos democratas e o Comitê Nacional do Partido Democrata também expressaram preocupação ao Facebook pela perda de acesso a essas formas baratas e efetivas de se comunicar com os eleitores.

Mas outros democratas importantes, e diversos pesquisadores de tecnologia politicamente independentes, advertiram que aquilo que definem como “microdirecionamento” poderia ameaçar a santidade do processo eleitoral ao solapar a prestação de contas e a transparência do discurso político.

Esses críticos alertaram que os eleitores não tinham maneira de saber que mensagens chegavam aos seus vizinhos e amigos, o que permitia que os políticos criassem mensagens baseadas naquilo que as pessoas desejam ouvir e não naquilo que seria melhor para o público como um todo. Seria muito mais difícil detectar e corrigir uma mentira contada a 100 pessoas estrategicamente selecionadas no Facebook do que uma mentira veiculada em um outdoor ou comercial de TV.

A democrata Ellen Weintraub advertiu em um artigo de opinião no The Washington Post, publicado quando ela era presidente da Comissão Eleitoral Federal, que esse tipo de direcionamento tinha um histórico como “arma poderosa para disseminar a desinformação e semear a discórdia”.

Por esses motivos, o Google proibiu políticos de usar seus recursos de direcionamento mais poderosos. O Twitter decidiu proibir toda a propaganda política. O senador Ron Wyden, democrata do Oregon, instou o Facebook a seguir o exemplo dessas empresas, “em lugar de continuar caçando os dólares da propaganda política”.

O Facebook debateu seriamente essa possibilidade durante longos meses, e estudou diversos tipos de restrição, entre as quais a proibição completa de propaganda eleitoral, disseram dirigentes da empresa, apontando que esse tipo de publicidade responde por porcentagem muito baixa da receita multibilionária da companhia, e gera dores de cabeça desproporcionais.

Mas quando vazou a notícia de que o Facebook estava considerando essas mudanças, Trump deixou clara a sua oposição.

A direção de sua campanha tuitou, com imagens de sirenes vermelhas, a seguinte mensagem: “IMPORTANTE @facebook quer nos tirar ferramentas importantes em 2020. Ferramentas que nos ajudam a atingir número maior dos ótimos cidadãos americanos & amplificar vozes que a mídia & as grandes empresas de tecnologia escolhem ignorar!”

O Facebook terminou anunciando em janeiro que aumentaria a transparência dos sistemas de direcionamento de publicidade, antes da eleição de 2020, mas não imporia limites novos aos políticos.
Rob Leathern, diretor de administração de produtos da companhia, deixou claro em um blog da empresa que ela havia escutado o burburinho político sobre a questão.

“Diferentemente do Google, optamos por não limitar o direcionamento de propaganda”, escreveu Leathern.

“Consideramos fazê-lo, mas, por meio de extensos contatos e consultas fomos informados sobre a importância dessas ferramentas para atingir audiências fundamentais, por uma ampla gama de ONGs, organizações sem fins lucrativos, e organizações e campanhas políticas, incluindo comitês tanto republicanos quanto democratas nos Estados Unidos”.
 
The Washington Post, tradução de Paulo Migliacci

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Artigo publicado por Folha de São Paulo folha.com.br