Tecnologia & Ciencia – Urandir – Just True News

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<span class="legend_box ">Há uma luta pela sobrevivência na natureza, e quem sobrevive é o que melhor se adapta às condições do ambiente em que vive</span>
<span class="credit_box ">Getty Images </span>
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<p>
O escritor irlandês Oscar Wilde, conhecido pela língua afiada, afirmou certa vez: "A vida nunca é justa. E talvez seja preferível para muitos de nós que não seja".</p>
<p>
A declaração tem pelo menos um fundo de verdade.</p>
<p>
Mas também é verdade que, em qualquer tipo de interação, nosso senso de justiça é incrivelmente forte.</p>
<p>
De fato, em alguns casos, pode até nos levar a perder propositalmente.</p>
<p>
Para analisar essa forma aparentemente irracional de pensar, te convidamos a participar do Jogo do Ultimato, famoso experimento econômico sobre a teoria dos jogos.</p>
<p>
É muito simples: eu faço a proposta, e você decide.</p>
<p>
Começou o jogo!</p>
<p>
Alguém me ofereceu US$ 100 para dividir com você.</p>
<p>
Se você aceitar minha proposta, ficaremos com o dinheiro. Se você rejeitar, eles pegam de volta.</p>

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<span class="legend_box ">Me ofereceram US$ 100, com a condição de dividir o dinheiro entre nós dois</span>
<span class="credit_box ">Getty Images </span>
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<p>
O justo seria te dar US$ 50 e ficar com US$ 50. Mas como o dinheiro está comigo, vou te oferecer US$ 40, para ficar com US$ 60.</p>

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<div class="content">O que você acha?</div>
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<p>
Talvez você aceite; afinal, entre não receber nada e ganhar US$ 40…</p>
<p>
De repente, você aceitaria minha proposta se a proporção fosse 70-30, seguindo a mesma lógica.</p>
<p>
Mas o que você diria se eu dissesse que vou ficar com US$ 80 e te dar US$ 20?</p>

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<div class="content">É pegar ou largar?</div>
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<p>
De acordo com as previsões econômicas, você aceitaria: qualquer quantia é melhor do que nada.</p>
<p>
No entanto, a divisão 80-20 é a proposta que a maioria das pessoas no mundo rejeita ao participar deste jogo.</p>

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<span class="legend_box ">Para a maioria das pessoas, é injusto receber apenas US$ 20 dos US$ 100</span>
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<p>
Pode parecer irracional, mas não é: as pessoas geralmente se comportam racionalmente do ponto de vista delas, então é realmente difícil definir o que é racional e o que não é.</p>
<p>
Neste caso, a maioria está disposta a pagar US$ 20 para me dar uma lição.</p>
<p>
Elas estão pensando no longo prazo: sacrificam uma pequena vitória para me punir na esperança de que eu deixe de ser tão egoísta.</p>
<p>
Sob este ponto de vista, é uma maneira perfeitamente racional de garantir o sucesso coletivo.</p>
<p>
Enquanto isso, no resto do reino animal…</p>
<p>
Mas, como aprendemos na escola, a maioria das criaturas do planeta não é racional. Então por que vemos no reino animal um comportamento de cooperação, altruísta, que parece beneficiar mais os outros do que o próprio indivíduo?</p>
<p>
Isso não contradiz a teoria da evolução, baseada na luta pela vida e pela sobrevivência dos mais aptos?</p>

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<span class="legend_box ">Será que este antílope tem alguma chance de sobreviver, já que está sendo perseguido por um leopardo?</span>
<span class="credit_box ">Getty Images </span>
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<p>
Quando estudamos a teoria da evolução na escola, muita gente pode ficar com a impressão de que tudo gira em torno da competição, que cada animal está necessariamente em busca do benefício próprio — e que, quanto mais apto estiver, mais chance terá de vencer embates por parceiros, comida e território.</p>
<p>
Se ele conseguir sair vitorioso destes conflitos, é mais provável então que consiga transmitir seus genes e ganhar o "jogo da vida".</p>
<p>
A teoria da evolução é uma história de conflitos, de luta pela existência.</p>
<p>
No entanto, ao estudar o comportamento animal, aparecem muitos exemplos de espécies que, quando lutam, parecem se conter e evitam escalar o conflito.</p>
<p>
Deve haver uma explicação alternativa.</p>

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<div class="content">Cervos, falcões e pombos</div>
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<p>
Essa explicação só começou a surgir no início dos anos 1970, quando o biólogo britânico John Maynard Smith recebeu um manuscrito para revisar, de autoria de um cientista americano desconhecido chamado George Price.</p>
<p>
Price não era matemático, biólogo evolucionista, tampouco teórico de jogos, mas havia lido John von Neumann — um dos matemáticos mais importantes do século 20 — e havia escrito sobre os jogos da Guerra Fria e os usos da dissuasão.</p>
<p>
No artigo, intitulado <em>Chifres, Combate Intraespecífico e Altruísmo</em>, ele argumenta que alguns elementos, como os chifres gigantes dos cervos, não são destinados a mutilar seus rivais, mas são acessórios estratégicos que ajudam a restringir conflitos e evitar os efeitos destrutivos da luta.</p>

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<span class="legend_box ">Uma arma de dissuasão, segundo alguns teóricos</span>
<span class="credit_box ">Getty Images </span>
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<p>
Ele ressalta que, como mísseis nucleares, os chifres são o tipo de arma que você pode exibir diante do inimigo, na esperança de que nunca precise usá-la.</p>
<p>
A ideia fascinou Maynard Smith, que, juntamente com Price, criou um jogo simples para analisar como essas estratégias para limitar confrontos violentos evoluem.</p>
<p>
E chamou de "Jogo Falcão-Pombo".</p>

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<div class="content">Jogando se aprende</div>
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<p>
Imagine duas espécies de aves com duas estratégias de comportamento hereditárias: a agressão (como os falcões) e a cooperação (como os pombos).</p>
<p>
Se dois falcões se enfrentam por algo como comida, há uma verdadeira guerra. Eles vão brigar, arriscando ficar feridos e não há garantias de que, ao final, consigam comer.</p>
<p>
Agora, se um falcão e um pombo entram em confronto, o pombo inicialmente vai se defender, mas logo abandonará a briga.</p>
<p>
Finalmente, se forem dois pombos, eles vão compartilhar a comida.</p>

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<span class="legend_box ">A agressão é uma boa estratégia no mundo animal</span>
<span class="credit_box ">Getty Images </span>
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<p>
Em cada interação, ambas as aves recebem uma pontuação que, quando somadas, acabam revelando qual dos comportamentos tem maior probabilidade de beneficiar os indivíduos e, assim, sobreviver ao longo das gerações.</p>
<p>
À primeira vista, parece que se todo mundo tivesse um comportamento de pombo, tudo funcionaria muito bem.</p>
<p>
Infelizmente, essa situação é instável, porque com o aparecimento de apenas um falcão malvado, ele imediatamente teria vantagem sobre todos.</p>
<p>
Mas, se o comportamento agressivo fosse dominante, também seria instável, devido ao risco constante e ao custo da violência.</p>
<p>
O que a matemática mostrou foi que é possível ter uma população estável, mas apenas se você tiver um terço de falcões e dois terços de pombos.</p>
<p>
Essa proporção pode mudar um pouco se você modificar a recompensa, mas a grande questão é que eles encontraram uma prova matemática de que evitar conflitos pode fornecer uma vantagem estratégica.</p>
<p>
E mostraram que a evolução não é simplesmente um tipo de jogo em que o vencedor leva tudo.</p>

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<span class="legend_box ">Duas vezes mais pombos do que falcões parece ser a proporção ideal</span>
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<p>
E assim, os cientistas adotaram essa nova forma evolutiva da teoria dos jogos.</p>
<p>
A razão? Encontrar a melhor estratégia vencedora no longo prazo para todos nós.</p>
<p>
Foi um cientista político americano chamado Robert Axelrod que, por volta de 1980, deu o passo seguinte.</p>

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<div class="content">Dilemas e mais jogos</div>
<span class="author"></span>
</div>

<p>
Axelrod convidou economistas, matemáticos, cientistas políticos, psicólogos e sociólogos — que escreveram trabalhos teóricos sobre a cooperação e a teoria dos jogos — para competir em um torneio.</p>
<p>
O desafio era desenvolver um programa de computador para disputar um jogo que combinava estratégias de comportamento agressivo e cooperativo.</p>
<p>
Pesquisadores de todo o mundo enviaram seus programas de computador e aguardaram para ver qual deles, alguns muito mais cooperativos do que outros, seria o vencedor.</p>
<p>
Quatorze programas deviam jogar 200 rodadas do famoso jogo "O dilema do prisioneiro", que funciona assim:</p>
<p>
- Duas pessoas são presas. As autoridades têm provas suficientes para condená-las por uma infração leve, mas sabem que cometeram um crime mais grave e precisam da confissão deles. Eles colocam os dois em celas separadas e dizem que devem escolher entre entregar o companheiro ou permanecer em silêncio;</p>
<p>
- Se os dois permanecem em silêncio, ambos são presos por um ano (pela infração leve);</p>
<p>
- Se um dedura e o outro fica calado, o primeiro é libertado, e o segundo pega 20 anos de prisão;</p>
<p>
- Se ambos denunciarem um ao outro, os dois recebem uma pena de 5 anos;</p>
<p>
- Nenhum dos dois sabe o que o outro vai fazer.</p>
<p>
Como era de se esperar, cooperar com o oponente dava bons resultados, embora a recompensa pudesse ser sempre muito maior atacando aquele que é cooperativo.</p>
<p>
Já atacar um agressor afetava a pena.</p>
<p>
No final, o vencedor foi um programa escrito em apenas quatro linhas de código, o mais simples que havia sido apresentado.</p>
<p>
E se chamava "Olho por olho".</p>
<p>
A estratégia mais bem sucedida?</p>
<p>
Este programa de computador começava cooperando, mas simplesmente copiava o que seu oponente havia feito na rodada anterior: se ele havia sido atacado, ele atacava; se ele havia cooperado, ele cooperava.</p>
<p>
A atitude dele era basicamente "uma mão lava a outra".</p>
<p>
Isso significa que Axelrod havia encontrado a estratégia ideal que estava procurando?</p>
<p>
Não exatamente, porque, diferentemente do que acontece na vida real, esses programas de computador podiam jogar sem parar e sem cometer erros.</p>

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<span class="legend_box ">Às vezes, fazemos coisas que ferem os outros sem querer</span>
<span class="credit_box ">Getty Images </span>
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<p>
Imagine se você decidir usar a estratégia "olho por olho" como um guia de comportamento para a sua vida.</p>
<p>
A princípio, você cooperaria e só retaliaria quando alguém se comportasse mal com você, para ensinar uma lição.</p>
<p>
Mas, e se você, sem querer, fizesse algo de errado, como esbarrar acidentalmente em alguém ao passar?</p>
<p>
Se essa pessoa também estiver se comportando de acordo com a estratégia "olho por olho", ela teria que dar um empurrão e você reagiria com outro…</p>
<p>
A estratégia já não parecia tão boa, mas alguns cientistas ainda não estavam prontos para descartá-la.</p>
<p>
Karl Sigmund e seu aluno Martin Nowak começaram a testar um novo tipo de torneio evolutivo, só que neste caso, como no mundo natural, as estratégias competitivas poderiam evoluir e cair no erro.</p>

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<div class="content">’Olho por sorriso’</div>
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</div>

<p>
Por meio de simulações em computador, eles observaram como as estratégias emergiram e competiram durante milhares de gerações.</p>
<p>
A ideia era deixar a seleção natural encontrar a estratégia vencedora.</p>
<p>
Após as primeiras 50 ou 100 rodadas, parecia que todo mundo era agressivo.</p>
<p>
Mas eles perceberam que havia uma pequena minoria que adotava uma estratégia parecida com a do "olho por olho", e viram essa pequena minoria crescer lentamente até começar a derrotar os agressores.</p>

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<span class="legend_box ">Tudo indica que, às vezes, você precisa perdoar o agressor</span>
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<p>
Ao esperar ainda mais, notaram que outra forma mais generosa de "olho por olho" evoluiu e se tornou dominante.</p>
<p>
Assim como a estratégia original, a primeira resposta sempre era de cooperação e continuava sendo até que surgisse um agressor.</p>
<p>
Mas, diferentemente da original, essa versão nem sempre respondia ao ataque com outro ataque: cerca de uma a cada três vezes, simplesmente ignorava a agressão e cooperava.</p>
<p>
A boa notícia é que, de todas as estratégias possíveis, a versão generosa do "olho por olho" era sempre vitoriosa.</p>

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<div class="content">Um alento</div>
<span class="author"></span>
</div>

<p>
Não havia um programa por trás deste estudo, nenhum projeto a favor do perdão, por assim dizer. Foi espontâneo. Uma simulação puramente matemática revelou que as estratégias vencedoras, no longo prazo, tendem a ser generosas, esperançosas e indulgentes.</p>
<p>
Mas, então, por que não vivemos em uma utopia maravilhosa, generosa, gentil e compreensiva?</p>

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<span class="legend_box ">A cooperação total acaba sendo a principal estratégia</span>
<span class="credit_box ">Getty Images </span>
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<p>
As simulações indicaram uma resposta.</p>
<p>
Durante gerações de estabilidade, a principal estratégia se converte na cooperação total e, como havíamos dito, é uma situação muito frágil, porque os agressores podem tomar as rédeas rapidamente e fazer o pior.</p>
<p>
No entanto, lentamente, graças a estratégias como a do "olho por olho", a cooperação surge repetidas vezes.</p>
<p>
Apesar da sua fragilidade, há esperança. Porque, em última análise, a cooperação não pode ser suprimida.</p>
<p>
Graças ao altruísmo, à amabilidade e à reciprocidade, a cooperação ressurge em várias ocasiões. E esses não são códigos intuídos por filósofos ou sacerdotes — são baseados na matemática pura e na própria evolução.</p>

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<div class="content">Como pode ser útil para você?</div>
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</div>

<p>
É uma estratégia que poderíamos tentar adotar.</p>
<p>
Pode funcionar para qualquer tipo de relacionamento — como, por exemplo, com seu companheiro.</p>
<p>
De acordo com o que lemos até agora, o que você deveria fazer é cooperar, mas também copiar o comportamento dele: se um dia ele chegar em casa com um presente surpresa, você também deve preparar um gesto romântico.</p>
<p>
Mas se uma noite ele chegar bêbado e depois do horário prometido, você pode fazer algo equivalente.</p>
<p>
No entanto, de vez em quando, você deve perdoar os erros deles, porque ninguém é perfeito, e você também vai errar em algum momento.</p>
<p>
E talvez seja algo que você não esperava: estratégias para uma vida mais feliz e um mundo melhor, graças à matemática.</p>

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fontes: Urandir News & Record Tecnologia www.r7.com