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Livro pró celibato na Igreja opõe os dois papas  Just True Urandir Pesquisa Ciencia Ufologia Tecnologia  2360 15788778825e1bc3bae3177 1578877882 3x2 xl   urandir   MUNDO   Livro pró celibato na Igreja opõe os dois papas

papa emérito Bento 16 pediu para não ser mais citado como coautor de um livro que é uma defesa do celibato dos sacerdotes católicos em todas as circunstâncias. Trechos da obra, assinada também pelo cardeal conservador Robert Sarah, vieram à tona no dia 12 e foram interpretados como uma crítica ao papa Francisco, que tem permitido debates sobre a flexibilização do celibato em circunstâncias especiais.

Mesmo levando em conta os quase 2.000 anos de história conturbada do catolicismo, a situação em torno do livro “Des Profondeurs de Nos Cœurs” (Das profundezas de nossos corações) contém complicações sem precedentes, seja no que diz respeito aos debates que têm dividido a Igreja nos últimos anos, seja na tentativa de definir as esferas de influência de papas “na ativa” e “aposentados”.

De um lado, a publicação do livro parece uma reação às conclusões do Sínodo da Amazônia, reunião de bispos de todos os países da região abrangida pela floresta que ocorreu em outubro de 2019.

Prelados católicos e participantes leigos discutiram novos caminhos para a atuação da Igreja em território amazônico e, em sua maioria, votaram a favor de propostas vistas como ousadas, como a incorporação de elementos das culturas indígenas na liturgia católica e a possibilidade de ordenar sacerdotes já casados.

Esses novos padres casados seriam homens maduros, com vida familiar sólida e atuação nas comunidades da região, e deveriam também já ser diáconos (membros do clero que hoje podem celebrar casamentos, mas não consagrar a hóstia e o vinho para a Eucaristia). A ideia por trás do plano é suprir a escassez de padres nas áreas mais isoladas da Amazônia —sem elas, dificulta-se muito a celebração da Eucaristia, parte mais importante das missas.

Encarada de forma isolada, trata-se de uma modificação modesta nas atuais regras do celibato. E não seria algo totalmente inédito. Igrejas cristãs do Oriente Médio subordinadas a Roma já têm padres com esposas há séculos.

E, durante seu papado, o próprio Bento 16 permitiu que sacerdotes casados da Igreja Anglicana (protestante) que se converteram ao catolicismo mantivessem suas uniões.

Isso é possível porque o celibato é considerado uma disciplina (ou seja, regra de conduta), e não um dogma essencial da fé católica, embora tenha predominado no Ocidente ao longo dos últimos mil anos.

Espera-se que o papa Francisco se pronuncie sobre as conclusões do sínodo por meio de um documento oficial (a chamada exortação apostólica) neste ano. Se o sinal verde vier, é muito provável que seja apenas para a situação particular da Amazônia, já que Francisco afirmou diversas vezes ser contrário a uma mudança generalizada na disciplina do celibato.

Apesar de todas essas ressalvas, a possibilidade, bem como as outras propostas ousadas do sínodo amazônico, deram ainda mais impulso a críticos conservadores de Francisco na hierarquia católica.

Esses críticos, como o cardeal americano Raymond Burke e o alemão Gerhard Müller (ex-chefe de pureza doutrinária da Igreja sob Bento 16), já tinham desafiado Francisco a se explicar sobre seu documento “Amoris Laetitia”, de 2016, que abriu a possibilidade de comunhão para ao menos alguns fiéis divorciados (também após debates em sínodos).

Com o Sínodo da Amazônia, os mesmos cardeais chegaram a falar de afirmações falsas ou mesmo heréticas nos documentos preparatórios (embora esses textos não tenham sido assinados pelo próprio Francisco).

Robert Sarah, nascido na República da Guiné, não está entre os críticos mais duros do papa argentino. Comandando a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, ele é especialista em assuntos litúrgicos (ou seja, rituais católicos) e, nesse ponto, é um defensor de missas segundo o rito antigo, em latim, tal como Bento 16. Também é bastante conservador do ponto de vista dos costumes, tal como a maior parte do clero africano.

Essas características o colocam como adversário natural das propostas do sínodo. Além disso, há estudiosos do Vaticano que creditam sua nomeação para a Congregação para o Culto Divino a uma espécie de promoção que equivale a um rebaixamento, já que Francisco dá pouco peso a questões litúrgicas.

A essas questões mais diretas da política da Igreja se sobrepõe um problema mais profundo: é a primeira vez na história em que um papa que renunciou não só continua morando ao lado de seu sucessor como, de vez em quando, dá entrevistas, publica textos e, querendo ou não, interfere nos debates do catolicismo.

Foi o próprio Bento 16 que criou a figura do papa emérito, antes inexistente. Por meio de seu secretário pessoal, o arcebispo Georg Gänswein, ele disse que participou do livro do cardeal africano apenas como autor de um dos capítulos, enquanto Sarah havia declarado que o papa emérito tinha supervisionado todo o processo de publicação.

De qualquer maneira, a impressão deixada pelo caso foi a de que Bento 16 tem servido —provavelmente de modo não intencional— como foco do descontentamento contra Francisco, graças a suas posições mais conservadoras.

Considerando que o papado é, formalmente, uma espécie de monarquia absoluta na qual a unidade dos fiéis sob o papa é um valor crucial, a instabilidade que esse foco alternativo de poder cria é considerável, e ainda não está claro como a Igreja lidará com o problema no longo prazo.


Algumas polêmicas do papado de Francisco

dez.2014 Ao confortar uma criança que tinha perdido seu cachorro, diz que animais também podem ir para o céu, discordando da ala conservadora

mai.2015 Em encíclica, diz que a mudança climática é “um dos principais desafios para a humanidade”

abr.2016 Apesar de criticar a separação, abre a possibilidade de divorciados poderem receber comunhão

mai.2018 Em sinalização defendendo a tolerância aos homossexuais, disse a uma vítima de abuso no Chile que o fato de ele ser gay não importava

ago.2018 Vaticano anuncia mudança na doutrina a pedido do papa Francisco que torna a pena de morte “inadmissível”

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fonte: Folha de São Paulo folha.com.br