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Coronavírus: por telefone, Argentina dá atendimento psicológico a idosos sozinhos em quarentena  Just True Urandir Pesquisa Ciencia Ufologia Tecnologia  c36a argentina   urandir   MUNDO   Coronavírus: por telefone, Argentina dá atendimento psicológico a idosos sozinhos em quarentena
Objetivo é dar continuidade a tratamentos, evitar ‘recaídas’, minimizar a solidão e ‘apoiar as pessoas neste contexto de emergência’. Homem passa por cartaz com a mensagem ‘fique em casa’, que é uma medida preventiva contra a propagação da Covid-19, em Buenos Aires, na Argentina, na segunda-feira (30)
Agustin Marcarian/Reuters
A diarista Mercedes Aranda, de 69 anos, viúva que mora sozinha no município de La Matanza, na província Buenos Aires, recebe duas ligações por dia, desde o início da quarentena implementada na Argentina para tentar evitar a propagação do novo coronavírus.
“Estou sozinha, mas não estou angustiada. De manhã, me liga meu psiquiatra e de noite, meu psicólogo. Assim, vou dormir tranquila e sei que receberei a outra ligação no dia seguinte”, explicou ela à BBC News Brasil pelo telefone.
A psiquiatra lhe pergunta, por exemplo, sobre os efeitos dos medicamentos receitados, que toma desde antes da quarentena motivada pela pandemia do novo coronavírus. Já o psicólogo, disse, lhe pergunta o que fez durante o dia, como está organizando sua jornada em casa.

“Ele me pergunta o que fiz, diz para eu me movimentar, porque não faz bem ficar parada ou muito tempo na cama, fala para eu ouvir o rádio, ouvir música e ter o celular sempre por perto, caso eu tenha uma emergência. Graças a essa atenção, estou bem”, contou Mercedes.
Diarista Mercedes Aranda, de 69 anos, recebe ligações de seu psicólogo e do seu psiquiatra
Mercedes Aranda/ Arquivo Pessoal
Aposentada, Mercedes costumava comparecer ao consultório de seus especialistas uma vez por semana e não esperava que o atendimento fosse continuar nos dias de paralisação praticamente total do país. “Fiquei surpresa quando eles me ligaram. Me sinto especial”, disse.
Por determinação do Ministério da Saúde argentino, o PAMI realiza o tratamento, agora por telefone, daqueles pacientes de ambulatório. Os casos entendidos como mais graves serão encaminhados a uma clínica que faça parte do Instituto, contou à BBC News Brasil um dos gerentes, que preferiu falar no anonimato.
A orientação, contou, veio da área de saúde mental do Ministério da Saúde, pensando nas pessoas que estão sozinhas na quarentena iniciada na sexta-feira, dia 20 de março, e que terminaria na terça-feira (31), mas, como anunciou o presidente argentino, Alberto Fernández, na noite de domingo (29), foi ampliada para até depois da Semana Santa.
‘Evitar recaídas’
Na quinta-feira (19), no mesmo dia em que Fernández anunciou a quarentena, o diretor nacional de Saúde Mental e Vícios (dependência química) do Ministério da Saúde, Hector Hugo Barrionuevo, assinou um documento sobre as recomendações para a continuidade de tratamentos e para novos casos que surjam durante a quarentena.
No texto, ele afirma que diante da emergência sanitária e da necessidade de uma resposta rápida na área de saúde, recomenda-se o uso dos meios (telefone, por exemplo) para que sejam evitadas “recaídas” e que se possa “apoiar as pessoas neste contexto de emergência”.
Barrionuevo afirma que a assistência deve ser dada “a todas as pessoas que estão em isolamento e que precisem de alguma forma de contenção (respaldo psicológico)”. E reconhece que as medidas administrativas de praxe devem ser flexíveis porque trata-se de uma situação inesperada e que são tempos de “colaboração e articulação social entre as pessoas” e “cuidar-se e cuidar aos demais”.
Para ampliar a atenção aos que se sentem sozinhos na quarentena, o PAMI convocou voluntários que queiram, após treinamento, telefonar para estas pessoas, como contou o professor de psicologia da terceira idade, Ricardo Iacub, da Universidade de Buenos Aires (UBA) e que é um dos gerentes do PAMI, em entrevista pelo telefone.
“Muita gente se sente sozinha e só quer conversar. Por isso, assim que a quarentena foi anunciada começamos a fazer essa convocação pública. Cinco dias depois, temos mais de 7,5 mil voluntários. É uma rede de solidariedade”, disse Iacub.
Para ele, o maior perigo hoje é o novo coronavírus, mas a solidão, enfatizou, também é um risco. “As pessoas que estão sozinhas podem ter problemas de saúde, como de coração, Alzheimer, maior deterioro cognitivo, e acabam indo mais ao médico, como apontam estudos internacionais. Podemos ajudar estas pessoas na quarentena”, disse o professor. Neste caso, os interessados têm a opção de dizer, por exemplo, no portal do PAMI que querem a ajuda e que lhe telefonem.
Presidente da Associação Psicanalítica Argentina (APA), Claudia Borenztejn, conta que pessoas relatam medo de morrer e angústias por telefone
Arquivo pessoal
Numa campanha na televisão, o governo da cidade de Buenos Aires segue os mesmos passos e convoca voluntários para conversar com quem precise nos dias de quarentena. Os voluntários, neste caso, podem ainda fazer as compras no supermercado e levar o animal de estimação da pessoa da terceira idade para passear. Segundo o governo portenho, quase 15 mil pessoas tinham feito a inscrição de voluntário até quinta-feira (26).
A Argentina tem longa tradição na área de psicanálise e no âmbito privado, os psicólogos e psicanalistas da Associação Psicanalítica Argentina (APA) têm se oferecido para atender, gratuitamente, através de uma linha telefônica da entidade, como contou à BBC News Brasil sua presidente, Claudia Borenztejn.
“Por enquanto temos mais psicanalistas oferecendo atender os pacientes telefonicamente do que pacientes em si. Mas começamos há apenas três dias e a tendência é que esse número (de pessoas ligando) aumente”, disse Borenztejn.
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Até quinta-feira (26), eram 50 psicanalistas para 37 pessoas que ligaram. Ela disse que os que ligam contam problemas diversos nestes dias em que ninguém pode sair de casa.
“São pessoas com medo de sofrer algo físico, medo de morrer, com angústias e com problemas como as discussões em casa. Tentamos ajudar, ouvindo, orientando, mas não é um tratamento, é um apoio nestes dias”, disse Borenztejn.
O psiquiatra e professor da área de neurociência da Universidade de Belgrano, Matias Bonanni, que aderiu ao sistema de ligações de vídeo para atender aos seus pacientes durante a quarentena observa, porém, que, no caso dos que precisam de receitas para comprar os medicamentos neste período, a situação está complicada. Nem todas as farmácias, observou, aceitam a receita por foto.
E com o distanciamento social, por causa da pandemia, alguns setores já discutem a necessidade de que este caminho mais expeditivo seja aceito, nesta etapa inédita das relações entre as pessoas.
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Artigo Publicado no Globo.com https://g1.globo.com