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Batalha entre garçonetes de sutiã e ultraortodoxos judeus explica crise em Israel  Just True Urandir Pesquisa Ciencia Ufologia Tecnologia  e61d 15602889375d001ea9c51c8 1560288937 3x2 rt   urandir   MUNDO   Batalha entre garçonetes de sutiã e ultraortodoxos judeus explica crise em Israel

Bastet, um café vegano e voltado ao público LGBT, com mesas azuis que se espalham pela calçada no centro de Jerusalém, é um oásis secular para os moradores que buscam um refresco no sábado, numa cidade que de modo geral se paralisa para o shabat judaico.

Mas toda semana uma procissão de homens ultraortodoxos, alguns com finos chapéus de pele e túnicas douradas, passa invariavelmente numa demonstração contra a dessacralização pelo café do dia de repouso judaico. “Shabbos!”, eles entoam, usando a palavra em iídiche para o shabat. 

Em um sábado recente, as funcionárias do estabelecimento revidaram, levantando as blusas e mostrando os sutiãs, na tentativa de afastar os religiosos conservadores.

O confronto refletiu uma tensão central em Israel sobre a própria natureza do Estado, fundado por sionistas seculares, mas com uma população ultrarreligiosa que está crescendo em tamanho e influência.

Essa tensão chegou ao primeiro plano no mês passado, prejudicando os esforços do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu para formar um novo governo e enviando um país atônito às urnas pela segunda vez neste ano.

Netanyahu precisava que duas facções concorrentes, a secular e a religiosa, formassem uma maioria governante no Parlamento, e elas ficaram num impasse sobre a legislação que propõe recrutar os ultraortodoxos para o serviço militar, como os outros judeus israelenses.

Os partidos ultrarreligiosos se opõem ao recrutamento, que acusam de ser uma tentativa de acabar com suas comunidades fechadas, colocando seus jovens em contato com a vida e os valores seculares.

Mas Avigdor Lieberman, o ex-ministro da Defesa ultranacionalista de Israel, fez da resistência à influência ultraortodoxa uma parte do apelo à sua base política de imigrantes seculares de língua russa.

Os aliados dele dizem que a questão do recrutamento faz parte de sua preocupação maior sobre uma comunidade minoritária que recebe benefícios sociais do Estado e deduções fiscais, enquanto contribui com menos que os demais israelenses.

Os ultraortodoxos, comunidade religiosa que inclui uma variedade de seitas, decidiram de modo geral se segregar da sociedade israelense como um todo para levar uma vida em que a observância religiosa é predominante. As influências externas, como filmes, internet e o convívio com israelenses seculares são desencorajadas, quando não proibidas.

Mas na democracia parlamentar fragmentada de Israel os partidos que representam os ultraortodoxos se tornaram politicamente decisivos nos últimos anos, elevando sua agenda e escavando um espaço na sociedade israelense que deverá crescer, segundo expectativas.

Para israelenses como Klil Lifshitz, 28, uma lésbica que abriu o Bastet há dois anos e meio com um corpo de garçonetes “superfeministas”, em vez de debandar para Tel Aviv, como fez a maioria de suas amigas, o espaço cada vez menor para o secularismo é preocupante.

“Eles têm cada vez mais poder”, disse ela sobre os ultraortodoxos. “Enquanto eles continuarem tendo o poder de formar coalizões e governos, basicamente vão conseguir o que quiserem.”

Foi durante uma grande manifestação no mês passado, convocada pelos judeus ultraortodoxos em protesto pelo que chamam de dessacralização do shabat por Israel enquanto o país abrigava o concurso de música Eurovision, que as garçonetes decidiram marcar sua posição. Elas disseram que o objetivo era proteger suas mesas e dar uma opinião ideológica.

Desde então os ultraortodoxos pararam com sua marcha semanal.

“É uma vitória”, disse Mira Ibrahim, uma funcionária do café que mostou o sutiã, embora tenha dito que a sensação de triunfo foi manchada por uma reação pesada da polícia às manifestantes, que deixou as garçonetes desconfortáveis.

Mas enquanto as moças do Bastet podem ter ganho um alívio temporário a batalha maior deverá crescer. Os ultraortodoxos, também conhecidos como haredim, formam apenas 12% da população, mas são o segmento de israelenses de mais rápido crescimento —as mulheres têm em média 6,9 filhos.

Nos primeiros tempos do Estado de Israel, muitos ultraortodoxos se opunham ao movimento sionista secular que o criou, temendo que ele erradicasse sua forma de judaísmo. Hoje eles estão aumentando seu poder no Parlamento israelense de 120 membros, onde recentemente ganharam 16 assentos, para promover e proteger seus interesses.

E não são só os ultraortodoxos que estão pressionando para que Israel seja governado pela lei religiosa. Na segunda-feira (10), Netanyahu rejeitou pedidos de seu aliado político Bezalel Smotrich, um judeu religioso, mas não ultraortodoxo, para que o sistema judiciário de Israel siga a lei judaica.

​”Israel não será um Estado halacha”, tuitou Netanyahu, usando o termo para a lei judaica baseada no Talmude.

Um Estado religioso é o que Avraham Menkes, rabino ultraortodoxo, gostaria de ver, e para ele o recrutamento militar é uma ameaça à existência de sua comunidade. O serviço nacional, diz ele, é um “caldeirão cultural” destinado a pegar imigrantes judeus de diferentes culturas do mundo e lhes dar uma identidade uniforme.

Menkes chefia a Comissão para Salvar o Mundo da Torá, grupo que lidera protestos contra as iniciativas de recrutar membros de sua comunidade. Ele já foi preso dez vezes por seu ativismo. Na parede de seu apartamento em Jerusalém há uma foto de um protesto dois anos atrás. Um grupo de manifestantes está sentado agrupado nas ruas, de costas para o jato de um canhão de água da polícia.

“Eu estou aí em algum lugar”, disse ele, explicando que estava agachado sob o paletó de seu terno preto, parte da tradicional vestimenta ultraortodoxa.

A questão do recrutamento chegou ao primeiro plano em 2017, quando a Suprema Corte de Israel decidiu que a isenção do serviço militar para os ultraortodoxos era ilegal e pediu que o Knesset elaborasse uma nova lei, mais igualitária (a maioria dos homens judeus em Israel tem de servir quase três anos, e as mulheres, dois.)

A isenção militar para os haredim existe desde o nascimento de Israel. Em 1949, o fundador do país, David Ben-Gurion, a concedeu a 400 estudantes de yeshivas [escolas religiosas], porque muitos estudiosos judeus tinham morrido no Holocausto. Desde então, os números incharam.

A questão do recrutamento instigou a raiva de muitos na população em geral, que considera que esses judeus religiosos não estão pagando a passagem. O emprego entre os homens ultraortodoxos é de apenas 50%; muitos preferem o estudo religioso. O governo os apoia com deduções fiscais e grandes pagamentos de benefícios sociais.

“Os israelenses que servem no Exército e trabalham duro para ganhar a vida dizem que eles são parasitas e vivem do dinheiro que recebem do governo, e nossos impostos estão sendo usados para isso”, disse Carlo Strenger, professor de filosofia e psicologia na Universidade de Tel Aviv, que afirmou que Israel está sendo dilacerado por esse medo e ressentimento.

Ele afirma que uma estrutura federativa, que dê aos ultraortodoxos e aos cidadãos árabes de Israel um modo de viver sem se sentir ameaçados, pode ser a resposta.

Lieberman deu prioridade a aprovar a nova lei de recrutamento, que define quotas para os ultraortodoxos e multa as escolas religiosas que não as cumprirem.

Aryeh Vishnevetsky, porta-voz do partido de Lieberman, o Israel Nossa Casa, disse que o tratamento igual é uma questão de princípio. Ele disse que por isso o partido também exigiu que os tribunais rabínicos ultraortodoxos eliminem a exigência de que alguns imigrantes russos façam testes de DNA para provar sua origem judaica.

Essas preocupações fazem parte do objetivo mais amplo de resistir a exigências ultraortodoxas que se impõem à vida secular, como que os supermercados fechem aos sábados, segundo pessoas próximas a Lieberman.

Mas eles dizem que não estão tentando mudar como os religiosos levam sua vida.

“Não queremos transformar ninguém numa pessoa secular”, disse Vishnevetsky, acrescentando que é mais fácil os haredim encontrarem trabalho depois do serviço militar.

No entender de Menkes, porém, todos os jovens haredim que são recrutados perdem a religião. Mais recentemente, seu sobrinho aboliu o quipá depois do serviço militar. “Ele foi para os militares como um haredi”, explicou Menkes. “E agora diz que descobriu o mundo.”

Em uma loja de esquina na mesma rua do bairro Shmuel Hanavi, em Jerusalém, Haim, 26, contou que serviu nos militares contra a vontade de sua família ultraortodoxa.

Embora ele ainda use um quipá preto e o uniforme preto e branco dos haredim, disse que na verdade hoje é ateu. Haim, cujo sobrenome não é publicado para que ele possa falar à vontade sobre suas crenças religiosas, disse que se tornava cada vez mais secular já antes de entrar no serviço militar.

Mas, disse ele, para muitos ultraortodoxos que buscam uma saída, o Exército oferece uma.

“É um portão para sair da comunidade. Os rabinos aqui têm medo que as pessoas se conectem com pessoas de fora”, disse ele. “O Exército é um desses lugares. Elas se misturam com pessoas seculares.”

Haim terminou o serviço há um ano e meio e recentemente voltou para casa por “motivos econômicos”. Encontrar trabalho pode ser difícil para os que deixam a comunidade, porque a escolaridade se concentra em estudos religiosos. Sua família permitiu que ele voltasse sob certas condições, disse ele. Uma é como se veste.

Haim disse que muitos em seu bairro estão irritados com Lieberman. Eles o culpam por provocar uma disputa religiosa em busca de poder ou uma vingança pessoal contra Netanyahu.

Mas depois da posição de Lieberman sobre o recrutamento Haim disse que hoje pensa em votar nele.

Embora muitos fora de Israel vejam seu conflito com os palestinos como a principal luta do país, Haim disse que vê o choque entre seus dois mundos —religioso e secular— como o mais perigoso, e que deverá crescer no futuro conforme a população ultraortodoxa aumenta.

Ele prevê que Israel atingirá um ponto de inflexão quando o equilíbrio entre as comunidades judias não será mais sustentável, e os judeus seculares começarão a deixar o país por se tornar muito restritivo.

“Em algum ponto ele vai se quebrar”, avisou o jovem.

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fonte: Folha de São Paulo folha.com.br