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   urandir   BRASIL   Brasileiro que morou em abrigo ganha vaga para estudar nos EUA

Yuri se formou no IF no último dia 6
Acervo pessoal

Ele nunca conheceu o pai, foi morar aos seis anos em um abrigo e recentemente conseguiu ser um dos 30 vencedores em um processo seletivo, entre 500 concorrentes, para estudar nos EUA.

Yuri de Melo Costa, de 20 anos, foi aprovado em março último para ingressar no Watson Institute’s Fall 2019 Semester Incubator, uma incubadora semestral para desenvolvimento de projetos sociais.

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Yuri, nos tempos do abrigo
Acervo pessoal

Yuri foi aceito por ter elaborado um projeto relativo à evasão escolar. O assunto foi escolhido justamente pelo fato de ter sido a escola a sua verdadeira salvação. De sorriso puro e fácil, apesar das adversidades, o jovem se considera um privilegiado pelo simples fato de ter se mantido nos estudos. Mesmo com dificuldades, em um ambiente em que a tentação de abandonar a escola é muito forte.

“Meu projeto é sobre evasão escolar até mesmo porque vi como isso é uma realidade no País. Sou o primeiro, na minha família, a me formar no Ensino Médio. Quero ajudar a tentar diminuir a evasão escolar. Isso não afetou a mim, mas afetou minha família, quero tentar impactar no Brasill de algum jeito, para que tal situação mude.”

O jovem nasceu e cresceu cercado pelas colinas e matas de Juiz de Fora (MG), onde ainda vive. Até os quatro anos, ele morou em um bairro periférico, São Benedito, com a mãe; a avó, Maria Aparecida Melo Costa; os irmãos Jennifer (hoje com 24 anos), Pablo (agora com 23 anos), Kailan e outras duas tias. Estudava na Emei do bairro, onde já era incentivado pela “tia” Cleia, que via potencial no menino.

E talvez, por alguma intuição, ela já estivesse prevendo que ele teria dificuldades na vida. Cedo ainda, Yuri perdeu um irmão, que nunca soube o nome.

“Nunca falaram sobre ele comigo.”

Yuri também não conheceu o pai, que nem aparece em seu registro. E quando o menino tinha quatro anos, a mãe dele começou a se envolver com drogas. O vício foi aumentando, a ponto dela trocar coisas velhas da casa pelas substâncias.

“Vendo isso, minha vó pegou eu e meus irmãos para ficar com ela, morei por um tempo com ela, até ela ter um AVC. Ficou sem condições. Lembro do dia em que, voltando da escola, vi minha avó tendo o AVC, foi duro.”

Os irmãos – ele, Jennifer e Pablo (que foi um pouco antes) – foram levados pela Vara da Juventude ao abrigo Aldeias Infantis S.O.S.. Kailan foi adotado e mudou de nome. As tias não tiveram como ficar com eles.

“Foi uma boa solução eu ir para o abrigo. Tive acesso a diversas oportunidades, acompanhamento psicológico, psiquiátrico, fazia aula de natação, violão. A Aldeia possibilitou me manter ocupado e me ofereceu oportunidades que minha família não teria condições de me oferecer, foi essencial.”

Estimulado por outra professora, a “tia” Goreth, passou em uma prova para fazer o Ensino Médio no IF (Instituto Federal Sudeste, antigo CTU), integrado com eletrotécnica.

Ele concluiu o curso no último dia 6. Neste período, integrou os estudos a outras atividades, como a de participante do projeto do Colégio Militar, voltado a criatividade, inovação e dinâmica, e a de bolsista do Neabi (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas, do IF).

Acabou fazendo contatos, organizando palestras sobre consciência negra, apresentando oportunidades para os alunos, até que viu a possibilidade de fazer o teste no Watson Institute. 

Arrecadação e esperança

Esta é a segunda vez em que ele é aceito já que, na primeira, em dezembro de 2018, não houve tempo para arrecadar as verbas necessárias. O instituto paga as mensalidades, mas faltam itens como passagem e hospedagem.

Yuri criou uma “vaquinha”, intitulada Yuri no WATSON Institute (www.vakinha.com.br), e, de R$ 17 mil necessários, já arrecadou mais de R$ 13 mil. O prazo final desta arrecadação é dia 19 de julho.

As tristezas do passado começaram a ser substituídas pela esperança. Mas, olhando para trás, ele lembra de cada detalhe. A cada passo dado, uma dificuldade era superada.

“Uma das minhas maiores dificuldades, inicialmente, foi me adaptar à Aldeia. Eu era pequeno, muito ligado à minha mãe, como eu era o mais novo, ficava mais com ela. Foi difícil, assim como outras adaptações que tive de fazer na vida. Foi difícil me adaptar ao método do Ensino Médio e ao fato de me desligar da minha família.”

O estudante recebe hoje o apoio de uma professora de natação, dos tempos de Emei, a “tia” Zuleika de Andrade Ferraz, que o acolheu inclusive em sua casa nos últimos dois anos.

Também recebeu ajuda da professora Vanessa Barbosa Leite Ferreira (Diretora da ACBEU – Associação Cultural Brasil e Estados Unidos), de quem recebeu uma bolsa para estudar inglês.

“Essas mulheres foram fundamentais em minha vida, além das professoras Cleia e Goreth.”

Ele mantém um contato com a família, apesar de distante. A avó faleceu recentemente. A mãe, de quem prefere não revelar o nome, teve mais quatro filhos. E se livrou do vício.

“O tempo é muito corrido. Mas mesmo assim agora me reaproximei mais. Fiquei meio distante por nove anos. Nunca deixei de querer ajudá-los. Tornei-me resiliente, foram minhas dificuldades que me levaram a ser o que sou hoje e me desafiaram sempre a querer ser mais.”

Yuri agora se diz encaminhado. Mas sempre empenhado. E sabe que, além da resiliência, seu maior segredo sempre foi sorrir. Uma das únicas coisas que, desde menino, ele não precisou aprender.

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