Urandir News – Notícias Internacionais

Quão mortal é a Covid 19?  Just True Urandir Pesquisa Ciencia Ufologia Tecnologia  0fda ap20049342253715   urandir   MUNDO   Quão mortal é a Covid 19?
Por que é tão importante – e tão difícil – conhecer a letalidade do novo coronavírus Na foto, o navio de cruzeiro Diamond Princess aparece atracado no porto de Yokohama, no Japão. A epidemia num grupo fechado ofereceu aos pesquisadores uma primeira estimativa da letalidade da Covid-19
Kyodo News via AP
Qual a chance de alguém que pegar o novo coronavírus morrer? Eis a pergunta mais importante a responder sobre a Covid-19 – e também a mais difícil. Avaliar a letalidade de uma pandemia é crucial para medir seu impacto. Aparentemente simples, trata-se um cálculo até agora sem resposta, tão sorrateiro e fugidio quanto o próprio vírus.
Considere alguns exemplos. No Brasil, até agora morreram 6,4% dos diagnosticados com a doença, pelas contas do Ministério da Saúde. Na Itália foram 13,2%. Na França, 13%. Na Espanha, 10%. China? 5,5%. Estados Unidos? 5,3%. Canadá: 4,1%. Alemanha: 3,1%. Israel: 1,9%. Coreia do Sul? 0,5%. Japão e Cingapura: 0,2%. Diferenças enormes, portanto.
Uma doença que mata menos de 0,1% dos infectados, como as gripes sazonais, tem um impacto no sistema de saúde e na sociedade em tudo diferente de outra que mata dez ou vinte vezes isso (como a gripe espanhola) ou cem vezes (como outra pandemia causada por um coronavírus, a Sars em 2003). Dependendo da extensão do contágio num país como o Brasil, pode ser a diferença entre 100 mil mortos, 1 milhão de mortos ou 10 milhões de mortos.
Se a letalidade da Covid-19 estiver em torno de 1% dos infectados, ela já representará um estresse incomparável para o sistema de saúde. Se, ao contrário, estiver mais próxima dos números registrados no Japão, Cingapura ou Coreia do Sul, pode mesmo ser comparada à gripe (não pelos sintomas, mas pelo impacto nos hospitais).
Por que há tanta variação nos nos números? Por que os cientistas até agora não sabem quão mortal a Covid-19 é de fato? A resposta revela como um dado aparentemente tão simples pode se esconder atrás de fatores de uma complexidade intratável.
Para começar, é importante entender o que significa a letalidade. O número que interessa sobre a doença, tanto para o tratamento quanto para o planejamento dos hospitais e autoridades, é: quantos dos que pegam o vírus morrem (conhecido como “taxa de letalidade dos infectados”, ou IFR na sigla em inglês). Trata-se, contudo, de um número impossível de saber com precisão, já que a maioria dos que pegam o vírus nem desenvolvem sintomas e podem transmiti-lo mesmo assim.
O número que é possível medir é outro: quantos dos diagnosticados com o vírus morrem (conhecido como “taxa de letalidade dos casos”, ou CFR). Para conhecê-lo, é preciso ter a capacidade de testar todos os casos suspeitos. Num momento de testes ainda escassos e insuficientes, todo dado será naturalmente distorcido. Daí a variação entre os países.
No começo, várias mortes pela Covid-19 não são atribuídas à doença. Quando começam os testes, portanto, a CFR tende a crescer. Quanto mais gente é testada, contudo, mais casos leves ou sem sintomas são somados no total, portanto a CFR começa logo depois a cair. Aos poucos, ela tende a ficar próxima da IFR, o número que interessa. É por isso que testes em massa são tão importantes.
Outra distorção deriva do tempo entre o diagnóstico e a morte. Dividir o número de mortos hoje pelo total de infectados hoje embute necessariamente um erro, já que aqueles que morreram pegaram o vírus semanas atrás. Só ao final da pandemia, quando forem conhecidos os números totais de mortos e diagnosticados, será possível ter o valor preciso da CFR. Até lá, tudo é aproximação.
Mesmo a medida aparentemente mais precisa dos efeitos da doença, a contagem das mortes, é pouco confiável. Países distintos usam critérios diferentes para registrá-las. Nem todos os mortos por doenças respiratórias são testados para Covid-19, muitos nem sequer são atendidos. Nos últimos dias, a China teve de reconhecer, depois que a primeira onda da pandemia já tinha passado, mais de 1.200 novas vítimas da doença que tinham morrido em casa.
Há, por fim, a interferência de características locais. É natural que, num país com alta proporção de idosos na população (como Itália ou França), a Covid-19 mate mais que noutro onde atinge predominantemente jovens (como em Cingapura, onde afetou predominantemente os trabalhadores em conjuntos residenciais de alta densidade). Ou que a tragédia seja maior onde o sistema de saúde é mais precário.
Os melhores exemplos para avaliar a letalidade real da doença vêm de países onde a epidemia já passou e que foram capazes de testar uma alta proporção da população. Ou de situações isoladas, como o navio de cruzeiro Diamond Princess, onde 712 dos 3.711 a bordo testaram positivo para o novo coronavírus e 13 morreram até agora, resultando numa CFR (e IFR) de 1,8%. Do total de infectados, 331 (ou 46%) não apresentaram sintomas.
Tal dado colocaria a Covid-19 no mesmo patamar de letalidade da gripe espanhola, que matou entre 2% e 3% dos infectados. E sugere que perto da metade daqueles que contraem o novo coronavírus não sofrem com a doença, embora reduzam as possibilidades de contágio – e, com isso, contribuam para garantir a imunidade coletiva da população e diminuir o impacto no sistema de saúde.
A avaliação para o Diamond Princess destoa um pouco de um estudo publicado no início de março na revista médica The Lancet, que estimou, com base em dados chineses, a CFR em 1,38%, e a IFR em 0,66%. Mesmo tal valor já seria uma letalidade considerável, capaz de levar ao colapso o sistema de saúde de vários países.
Avaliar a proporção de assintomáticos entre os infectados é o principal desafio para medir a letalidade de modo mais preciso. É esse o objetivo de vários estudos recentes, que aplicam testes numa amostra representativa para medir aquilo que os cientistas chamam de “prevalência”, ou o número de casos da doença ativos na população.
Não se trata de saber apenas quem está com Covid-19, mas sim todos aqueles que têm anticorpos para o vírus – seja porque estejam infectados, seja porque já foram e desenvolveram imunidade. Quão mais alta for a proporção de infectados sem sintomas, mais próxima a população está da imunidade coletiva – e menor a letalidade.
A maioria dos estudos que tentam medir a prevalência em vários países e regiões ainda não passou pelo ritual acadêmico de revisão pelos pares, garantia da qualidade do conhecimento produzido. Mesmo assim, eles têm relevância por trazer informações em primeira mão e apontar caminhos. Divergências, contudo, são comuns.
É o caso de dois estudos divulgados na semana passada com levantamentos para a cidade italiana de Vò, no Vêneto, e para o condado americano de Santa Clara, na Califórnia. O primeiro discute a estratégia bem-sucedida de Vò, que associou a quarentena a testes em massa depois de registrar a primeira morte na Itália, em 21 de fevereiro.
Numa primeira rodada, foram testados 86% dos quase 3.300 habitantes. Na segunda, 72%. Os cientistas estimaram que o número de infectados caiu de 2,6% para 1,2% entre as rodadas e que 43% não apresentavam sintomas da doença. No final de março já não havia casos ativos. Não houve mais mortos (a letalidade ficou em 1,4%).
O estudo de Santa Clara, em contrapartida, testou uma amostra de 3.300 voluntários, recrutados no Facebook. Pelos resultados, 2,8% da população do condado, entre 48 mil e 81 mil pessoas, já têm anticorpos para a Covid-19, quase 70 vezes o número divulgado oficialmente. Mas esses resultados foram contestados por deficiências no tratamento estatístico dos dados e pelo viés na seleção da amostra.
Um terceiro estudo, que já passou por revisão pelos pares e foi publicado no New England Journal of Medicine, avaliou a prevalência da Covid-19 na Islândia, onde 6% da população foram testados, numa estratégia similar à sul-coreana. De acordo com o resultado, a prevalência estava em torno de 0,7% da população, valor bem inferior ao resultado obtido na Califórnia, mais próximo de levantamentos anteriores realizados para China e Coreia do Sul.
As dificuldades que cercam os cálculos da letalidade e da prevalência não desaparecerão. Mais testes de anticorpos são cruciais para aperfeiçoar tais medidas e garantir maior precisão no combate à Covid-19. Enquanto não há consenso científico, permanece o espaço para as opinões, a ideologia e o uso político da doença.

Urandir – Notícias Internacionais
Matéria original publicada em globo.com