Atualizado em sexta-feira, 25 de abril de 2014 – 20h45

Papa que será canonizado no próximo domingo ganhou fama como progressista por ter promovido o diálogo com outras religiões

eb4bd93520 f 244470   urandir   João 23 é o pai da Igreja modernaPapa João 23 é homenageado em exposição no Vaticano Giuseppe Cacace/AFP

João 23 (1881-1963), o chamado “papa bom”, que será canonizado no próximo domingo, 27 de abril, é considerado o pai da renovação da Igreja Católica com o lançamento do Concílio Vaticano II, em 1962.

 

Conhecido por sua simplicidade e afabilidade, o pontífice esteve à frente da Igreja por apenas cinco anos, de 1958 a 1963. Foi beatificado em 3 de setembro de 2000 por João Paulo 2º. Agora ambos serão canonizados pelo papa argentino Francisco.

 

Ele ganhou fama como progressista por ter promovido o diálogo com outras religiões e com os que não professam religião, assim como por ter destacado as raízes judaicas do Cristianismo, tentando fechar antigas feridas.

 

Angelo Giuseppe Roncalli nasceu em 25 de novembro de 1881, em Sotto il Monte (norte da Itália), em uma modesta família camponesa da Lombardia. Estudou no Seminário Pontifício Romano e foi ordenado padre em 1904 e bispo em 1925. Seguiu a carreira diplomática e foi enviado para Bulgária, Turquia e, finalmente, França, pouco depois da Segunda Guerra Mundial.

 

Salvou milhares de judeus dos campos de concentração

 

Durante a Segunda Guerra Mundial, João 23 ajudou a salvar milhares de judeus da perseguição nazista na Hungria, o que foi reconhecido por importantes organizações judaicas.

 

“Foi uma das pessoas mais sensíveis à tragédia judaica e fez muito para salvá-los”, indica uma inscrição no portal Yad Vashem, o Memorial do Holocausto de Jerusalém.

 

Seu plano foi batizar judeus húngaros, que, de posse das certidões, evitaram ser enviados para os campos de concentração. Sua estratégia evitou a morte de 24 mil pessoas, de acordo com depoimentos dados nos tribunais de Nuremberg.

 

Em 1953, foi designado cardeal e nomeado patriarca de Veneza.

 

Ele tinha 77 anos quando foi eleito papa, em 28 de outubro de 1958, com o nome de João 23, sucedendo a Pio 12.

 

‘Vou abrir a janela da Igreja’

 

O novo papa, que era visto inicialmente como uma figura de transição, surpreendeu o mundo ao anunciar em 25 de janeiro de 1959 a celebração do Concílio Vaticano II. Na assembleia, que ele inaugurou em 11 de outubro de 1962, bispos de todo o mundo se reuniram para mudar a Igreja.

 

“Vou abrir a janela da Igreja para que possamos ver o que acontece do lado de fora e para que o mundo possa ver o que acontece na nossa casa”, declarou na época.

 

Na noite de sua eleição para o “trono de Pedro”, diante da multidão, pronunciou o memorável “Discurso à Lua”. Naquele momento, estabeleceu um contato direto e humilde com o povo, que serviu, inclusive, de inspiração para o argentino Francisco.

 

“Aqui, de fato, todo o mundo está representado. Poderíamos dizer que até mesmo a Lua está com pressa esta noite… Observem-na, lá no alto, está olhando para este espetáculo…”, afirmou ele, sob um esplêndido luar de outubro.

 

“Voltando para casa, encontrarão as crianças. Deem a elas um carinho e digam: ‘Este é o carinho do Papa’”, concluiu, usando palavras simples e inovadoras no discurso da Igreja.

 

“Com João 23, a Igreja era menos distante”, comentou o vaticanista Gian Franco Svidercoschi.

 

A princípio, os setores conservadores do Vaticano pensavam que o Concílio não debateria assuntos importantes, mas rapidamente perceberam que não seria assim.

 

Crise dos mísseis em Cuba

 

O Concílio Vaticano II debateu muitos temas – do abandono da batina ao latim como idioma oficial da Santa Sé, passando pela liberdade de consciência e de religião, pelo diálogo com outras religiões e pela modificação da atitude do Catolicismo em relação aos judeus.

 

A assembleia ainda não estava concluída quando João 23 faleceu, em 3 de junho de 1963, depois de ter publicado a carta encíclica “Pacem in Terris” (Paz na Terra).

 

Poucos meses antes de sua morte, em outubro de 1962, ele havia enviado a histórica mensagem radiofônica “urbi et orbi” às embaixadas dos Estados Unidos e da extinta União Soviética para pedir paz e frear a chamada crise dos Mísseis em Cuba. No período bastante delicado, o mundo ficou à beira de uma guerra nuclear.

 

Sabia combinar dinamismo com tradição

 

João 23 “deixou em todos a lembrança de um homem com os braços abertos para acolher o mundo”, garantiu João Paulo 2º no dia de sua beatificação em 2000.

 

De forma pouco tradicional – embora dentro das normas canônicas que estabelecem as prerrogativas do pontífice -, o papa Francisco decidiu que João 23 será canonizado mesmo que a Congregação para a Causa dos Santos não tenha comprovado que ele intercedeu em um milagre.

 

“Todos nós conhecemos as virtudes e a personalidade do papa Roncalli e não há necessidade de explicar os motivos da decisão de Sua Santidade”, afirmou o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi.

 

Seu ex-secretário particular, Loris Capovilla, hoje com 98 anos, explicou que um dos segredos do papa Roncalli era “sua capacidade de combinar dinamismo com tradição, conservadorismo com abertura evangélica”.

 

Várias histórias circulam sobre seu apurado senso de humor e seu dom admirável para não se levar a sério. Contavam em Roma que João 23 disse pouco antes de morrer: “Se desde o início da Eternidade Deus sabia que eu ia ser papa e teve 80 anos para ir me modelando, por que me fez tão feio?”.

Urandir 2014 – Notícias Internacionais